Do verde às cinzas

Por Danielle Moreira e Cristina Jaques.

Em meio aos diversos tons de verde, marrom e outras cores menos aparentes de uma floresta – porém tão belas quanto – descansam inúmeros animais. Desde os pequenos artrópodes até a robusta anta, a floresta é o seu local de trabalho, o seu refúgio, a sua casa. Eles já conhecem a rotina daquele ambiente e até mesmo uma boa chuva não impede que o seu refúgio desmorone. (Uma boa chuva é, inúmeras vezes, bem-vinda!). E a floresta continua protegendo esses animais, assim como esses animais continuam mantendo essa floresta, esse ecossistema, vivo. São inúmeros os processos ecológicos e interações envolvidos. E como uma sinfonia de Mozart, a rotina harmoniosa por vezes é quebrada por bruscas interações competitivas. No entanto, esses eventos já são esperados.

O que poderia acontecer se um evento inesperado, teoricamente raro, acontecesse? E se esse evento deixasse de se tornar raro, caminhando para um evento comum? E  se pudesse causar drásticas modificações na floresta? O que aconteceria com a fauna e flora, e com os processos ecológicos mantidos por eles? “Que evento poderia ser esse, então?” Você me perguntaria… Bem, apenas dê uma olhada no vídeo abaixo.

Um incêndio florestal poderia ser considerado um evento raro se ocorresse de forma natural – como o provocado por um raio, por exemplo. Mas sabemos que, atualmente, incêndios florestais, são muito mais provocados por nós, intencionalmente ou não. Esse vídeo que você acabou de assistir aconteceu na Reserva Biológica de Sooretama (RBS), entre os dias 29 de fevereiro e  16 de março de 2016. Duas de nossas armadilhas fotográficas gravaram o evento – e, por muita sorte, as câmeras ainda estão intactas!

As armadilhas fotográficas, que são câmeras com um sensor de movimento, foram instaladas na RBS pela equipe do Pró-Tapir, para estudar as atividades de diversos mamíferos, incluindo, claro, a anta. Essas armadilhas ficam em funcionamento 24 horas por dia, durante pelo menos um mês, até decidirmos movê-la para outra área ou retirá-la daquele local. Nossas câmeras estavam funcionando por duas semanas quando  o incêndio iniciou. No dia seguinte, parte da equipe foi ao local, conseguindo retirar oito delas, porém o restante continuou na mata. Por estarem nas áreas onde o fogo consumiu parte da RBS, pensávamos que iríamos perdê-las, mas para a nossa surpresa (e alívio!), quando retornamos, na segunda semana de abril de 2016, elas ainda estavam lá.

Assim que abrimos as imagens, vimos que todas as câmeras registraram a presença de alguma espécie da fauna antes do incêndio. E, de repente, ela capturou uma sequência de fotos e vídeos do incêndio. As imagens não mostraram nada além do fogo e da fumaça, porém só de pensar que um animal poderia estar em uma área consumida pelo fogo, como aquele do vídeo, faz o nosso corpo arrepiar.

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Imagem um pouco antes do incêncio chegar na área, onde uma de nossas câmeras estava instalada. Note que a “névoa” na imagem é, na realidade, fumaça.

 

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Fogo registrado nas imagens das armadilhas fotográficas instaladas pela equipe do Pró-Tapir.

Sabemos, por meio dos homens, que lutavam contra o fogo, que vários animais foram vistos queimados ou feridos por causa do incêndio. Mas, esses foram aqueles animais que podem se mover em grandes distâncias. E o que dizer daqueles que não podem? E o que dizer das espécies da flora? Aliás, a imagem pós-fogo é impressionante. Uma mata antes verde, agora percebemos apenas o negro das cinzas.

A RBS possui cerca de 27.000 ha. O fogo ocorreu na área leste e em uma parte da área central da RBS e, devido aos esforços da brigada de incêndio, bombeiros, trabalhadores da RBS, da Reserva Natural Vale e de vários outros voluntários, ele não se espalhou para outras áreas. Nós, como biólogos, sabemos da extrema importância da RBS para aquela região. Ela é um dos últimos refúgios da flora e fauna no norte do Espírito Santo e uma dos poucos da Mata Atlântica. Sem aquelas florestas, vários serviços ecológicos seriam totalmente perdidos. Por exemplo, a falta de água em áreas desmatadas já é uma realidade.

Quando dissemos que incêndios não são mais considerados eventos raros, é porque a sua causa está muito relacionada com as atividades humanas. Não se sabe exatamente como iniciou o incêndio da RBS, mas tudo indica que foi acidental. Sendo acidental ou não, já é hora de assumirmos que temos culpa por não considerar como os nossos pequenos e perigosos atos podem influenciar o futuro da nossa biodiversidade.

 

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